Aí vai o Quarto artigo da Drª Maria Claudia Brito sobre Autismo, Linguagem e Fonoaudiologia. Entre as mais frequentes dúvidas que pais e profissionais trazem a mim em relação a crianças com autismo/ TEA temos as recorrentes "PORQUE ELE AINDA NÃO FALA" E "O QUE PODEMOS FAZER sobre isso?"

 

Apraxia e Autismo: Porque Ele ainda não Fala? O que fazer?

Entre as mais frequentes dúvidas que pais e profissionais trazem a mim em relação a crianças com autismo/ TEA temos as recorrentes "PORQUE ELE AINDA NÃO FALA" E "O QUE PODEMOS FAZER sobre isso?"

Estas são perguntas que remetem a muitas respostas, que envolvem muitas variáveis e também aspectos ainda em investigação científica. Entretanto, trarei neste texto um tema importante quando assunto é a ausência e outras dificuldades de fala em pessoas com autismo/TEA, a Apraxia de Fala.

Apesar da importância o tema ainda é restrita e insuficientemente divulgado e conhecido por pais e profissionais no Brasil.

Há evidências crescentes de que a ausência de fala ou gestos, em algumas crianças com Autismo/transtorno do espectro do autismo (TEA), pode estar relacionada a outros fatores, além de dificuldades sociais e cognitivas. Uma área que deve ser investigada inclui o aspecto do planejamento motor da fala, o que inclui as apraxias orais e verbais.

Muitas vezes o motivo de uma criança com Autismo não falar, está relacionado com habilidades cognitivas e sociais de linguagem ou habilidades receptivas. No entanto, o déficit no planejamento motor da fala, também pode estar presente nessas crianças e isso poderá interferir no desenvolvimento da fala.

Sabe-se que o desenvolvimento da fala da criança ocorre de forma gradual, respeitando as etapas de maturação e influenciado pelo ambiente à sua volta. As crianças não nascem com os movimentos de fala já desenvolvidos e, portanto, não apresentam a praxia desenvolvida.

Os movimentos de lábios, língua e mandíbula passam por mudanças, e os movimentos indiferenciados no início da infância passam a ser refinados e diferenciados conforme o desenvolvimento. Essas transformações também são fundamentais para alcançar níveis mais elevados de precisão e coordenação articulatória, importantes para a efetividade da comunicação oral.

Quando este refinamento não ocorre, a produção da fala torna-se comprometida, podendo surgir a suspeita de uma desordem práxica na infância. 

Apraxia de fala não é apenas um atraso na fala, pelo contrário, é um distúrbio motor (neurológico-funcional) para produzir os sons da fala. É uma desordem neurocomportamental, no qual os parâmetros espaço-temporais dos movimentos da fala estão comprometidos. É um distúrbio instável, dinâmico e que pode persistir até a idade adulta (American Speech-Language-Hearing Association, 2007).

De acordo com a American Speech and Hearing Association (ASHA), em um grupo de 1000 crianças na faixa etária de 1 a 5 anos, 10 delas apresentaram algum distúrbio de comunicação. Entre as crianças com distúrbios da comunicação de 3 a 5% foram diagnosticadas com Apraxia de Fala. 

Alguns dos principais sinais de Apraxia de Fala são:

. Balbucio limitado ou pouca variação (considerados “bebês quietinhos”); 
. Repertório de fonemas (sons) reduzido (por ex. só produz duas vogais ou apenas o som do P ou M);
. Erros ou “trocas” inconsistentes (ou seja, ora o “pato” é “pu” ora é “bi”) 
. Aumento de erros ou dificuldade quanto mais extensa e mais complexas as sílabas das palavras. 
. Erros de vogais “ex. troca E por A... 
. Fala “monótona”, ou seja, que parece falar sempre do mesmo “jeito” 
. Perda de palavras previamente produzidas (falou por ex. "carro" uma vez e nunca mais conseguiu!") 
. Mais dificuldade com as respostas de fala voluntária do que as automáticas 
. Predominância do uso de formas silábicas simples (consoante-vogal), ex. pode ocorrer da criança falar apenas uma sílaba ou apenas a vogal da palavra. 
. Outros sinais que podem estar presentes: desajeitamento motor global; dificuldade na coordenação motora fina, dificuldades alimentares (o alimento "fica parado" na boca ou recusa de alimentos); dificuldade para realizar voluntariamente sorriso, mandar beijo, (expressões faciais); dificuldade com movimentos orais (não-verbais) como movimentar a língua para cima, para os lados, fazer bico, soprar, etc.

O atendimento de uma criança com Apraxia é a longo prazo e este prazo é maior ou menor e depende da gravidade da Apraxia O atendimento de uma criança com Apraxia deve ser individual e a frequência das sessões intensiva, para casos de Apraxia Severa ou Grave, a recomendação é que a frequência seja, de 3 a 4 vezes por semana. Os resultados também são obtidos a longo prazo. 

A parceria com a família é fundamental. Para isso o Fonoaudiólogo poderá orientar os familiares de forma tranquila, colaborativa e empática sobre o planejamento terapêutico da criança com autismo/TEA, e sobre o que poderá ser feito em casa para auxiliar na evolução da criança. 

 

SEJAM SEMPRE BEM VINDOS AQUI! OS SENHORES SÃO MEUS CONVIDADOS E FIQUEM À VONTADE PARA DEIXAR SEUS COMENTÁRIOS SE ASSIM DESEJAREM! ABRAÇOS! Drª MARIA CLAUDIA BRITO

 

Referências:

American Speech-Language-Hearing Association. Childhood Apraxia of Speech [Technical Report]. 2007. 

Associação Brasileira de Apraxia de Fala na Infância:apraxiabrasil.org

Meyer PG. Tongue lip and jaw differentiation and its relationship to orofacial myofunctional treatment. Int. J. Orofac. Myol. 2000;(26):44-52. 

Prizant, Barry M. “Brief report: communication, language, social and emotional development.” Journal of Autism and Developmental Disorders, Vol. 26, No. 2, 1996

Von Atzingen BS. Apraxia de desenvolvimento: aspectos diagnósticos. Pró-Fono. 2002;(14):39-50.

Shriberg LD, Aram DM, Kwiatkowski J. Developmental apraxia of speech:I. Descrip. and theoretical perspectives. J Speech Lang Hear Res. 1997a;(40):273-85

 

Maria Claudia Brito -

Fonoaudióloga. Atende em Consultório na cidade de Bauru/SP. Pós-Doutora e Doutora (PhD) em Educação, Mestre em Psicologia (todos com ênfase em Autismo), UNESP/SP. Professora Universitária, Pesquisadora do CNPq/SET-A em Autismo, Robótica e Linguagem e do Grupo de Pesquisa CNPq Diferença, Desvio e Estigma, UNESP/SP. Diretora do Instituto Nacional Saber Autismo.

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